Era fato, naquele dia, ele não tinha certeza nem mais do seu nome. Amigos, família e dinheiro. Tudo aquilo agora fazia parte de seu passado, sua vida agora era seu pequeno quarto de apartamento.
Nunca havia sido um exemplo, maltratado pelos pais, viveu sempre à margem de sua família, vagava errante pelas ruas de sua cidade, e apesar de ser um rapaz de classe média, às vezes dormia na rua, jogado, entorpecido por suas próprias memórias. Sempre que voltava pra casa, não era bem recebido por seus pais, que já não acreditavam na salvação daquele filho, seu corpo dava sinais da vida sofrida que levara nos meses ausente, a pele, não mais saudável como outrora, cabelos mal cuidados e cicatrizes espalhadas pelo corpo, apesar disso, sempre o tinham em casa, dando-lhe assistência.
Sem imaginar que era ouvida, sua mãe chorava todas as noites, clamando a Deus, e perguntava-Lhe o porquê de tanto sofrimento, e sem saber, era ouvida pelo filho que
a cada dia, tinha mais a certeza que não era bem vindo. O pai, somente lamentava silencioso.
E aquilo se arrastou por mais três semanas até que decidiu que logo a convivência se tornaria insustentável. Juntou as poucas coisas que havia trazido e deixou um bilhete, não como os outros, que diziam que ele voltaria em breve, mas de despedida, e agradecimento.
Saiu novamente às ruas, com passo firme e dessa, vez, com direção. No período que estava em casa, havia tomado escondido as chaves de um apartamento dos pais, costumava ficar alugada, mas estava vazio recentemente. Ele se dirigia pra lá convicto. Ao chegar, se apresentou ao porteiro, que o reconheceu vagamente, de tempos atrás. No apartamento, se sentiu em casa, como havia se sentido poucas vezes em sua vida, não estava completamente mobiliado, mas era suficiente para que vivesse,ainda mais que já estava acostumado a viver sem confortos.
Largou suas coisas em um canto, e foi à janela, deu uma olhada breve e a fechou, assim como fez com todas as outras, trancou as portas e enfim, respirou aliviado.
Ali, passou três meses de sua vida, perambulando pelos cômodos e gastando o dinheiro que ainda tinha no banco. Decidiu escrever, sentia vontade de se comunicar, não verbalmente, mas algo que exigisse mais de sua concentração e menos da sua paciência. Com um lápis e um papel amarelado começou a escrever suas memórias, com aquele leve exagero do quem se considera sofrido. Era sua terapia, ali descontava suas mágoas e relembrava os momentos felizes daqueles 30 anos de vida. Sem perceber, tornou-se dependente daquilo. Com o tempo, passou a cuidar mais de si mesmo, continuou se isolando, mas agora sentia que tinha um lugar no mundo, que não era somente mais um.
Até o dia em que terminou seus relatos, não tinha nada mais a escrever, parecia que, até aquele momento, sua obra estava completa. Não via motivos de continuar a contar sua vida a partir dali, decidiu terminar. Não só com o livro, mas também com o motivo de o mesmo existir, pois havia descoberto que, ao saber exatamente quem você é, não há mais nada a fazer.